Articles for Abril 2007

33 anos

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
e’ uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
e’ vinho, e’ espuma, e’ fermento,
bichinho a’lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpetuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
e’ tela, e’ cor, e’ pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pina’culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
mascara grega, magia,
que e’ retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que e’ Cabo da Boa Esperanca,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de danca,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do atomo, radar,
ultra-som, televisao,
desembarque em foguetão
na superficie lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

de ANTONIO GEDEÃO

Venham eles!

Sócrates já avisou: a ligação Porto-Vigo não é prioritária. Mas o Presidente da Xunta da Galiza não deixa a coisa por menos: o Porto tem mais interesse em juntar-se à Galiza (e a Galiza ao Porto) do que ao resto do País. E avançam, eles, com projectos de infra-estruturas para unir aquilo que nunca deveria ter sido separado.

Ora aí está um assunto em que estamos todos de acordo. Nós, os galegos.

Por falar em obscurantismo e outras IDiotices

A Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (as Ciências da Educação aparecem muitas vezes ligadas a estas coisas do ocultismo e do pensamento obscurantista, vá lá saber-se porquê…)  patrocinou um congresso sobre, entre outras coisas, “Psicologia Transpessoal”.

A Transpessoal é um ramo da Psicologia que estuda os diferentes estados de consciência pelos quais passa o ser humano (…) A Psicologia Transpessoal estuda a relação desses estados e a vivência da realidade, mais particularmente a consciência cósmica“.

Depois da transdisciplinaridade em educação, depois da transdisciplinaridade em Psicologia, qualquer dia também temos os alunos transpessoais.

Conselhos aos docentes

Até ao fim do 2º período, ou seja, em 121 dias de aula, foram agredidos 157 professores nas escolas portuguesas, mais de um por dia. E, no período de avaliações e notas anterior às férias da Páscoa, a média disparou para dois por dia. Os números são da Linha SOS Professor, mas a ministra continua a dizer que se trata de casos “pontuais” (e, na verdade, muitos professores acabaram no hospital, tendo sido suturados com número indeterminado de “pontos”). A culpa é, obviamente, dos próprios professores, que, apesar das instruções do Ministério para que se acabe com o insucesso escolar, continuam a dar más notas. E, pior, a dar os programas. Fossem eles tão avisados como os seus colegas ingleses, que (veio agora no “Daily Mail”, citando um estudo governamental) deixaram de falar do Holocausto e das Cruzadas nas aulas com medo dos alunos muçulmanos, e adaptariam os programas aos interesses dominantes de grande parte dos alunos das nossas escolas públicas futebol e toques de telemóvel. A Matemática, o Português, a História, a Física, etc., seriam dados só em colégios privados. Para que é que um futuro desempregado precisa de saber Matemática ou Física? Se vier mais tarde a precisar de um diploma, poderá depois obtê-lo na Universidade Independente.

Crise de autoridade

Tinha eu 18/20 anos e passava as 5ªas à noite, e depois também os domingos de manhã, a ouvir Júlio Machado Vaz, Aurélio Gomes e o saudoso José Gabriel na então Rádio Nova, n’O Sexo dos Anjos. Habituei-me desde aí a prestar atenção ao que o bom murcon diz.

Ouvi hoje Júlio Machado Vaz dizer, na Antena 1, que o comportamento dos jovens delinquentes portugueses em Llorete del Mar é inadmissível; e que é preocupante que uma das criaturas, entrevistadas pelos OCS, tenha dito que “foi apenas uma brincadeira e é um bocado exagerado terem sido expulsos só por aquilo”. Falta-lhes sentido de respeito e de responsabilidade, diz JMV.

Sucede que Eduardo Sá, muito na linha de Daniel Sampaio, diz que é bom que os adolescentes confrontem os seus pais e professores, pois faz parte do processo de crescimento. Suponho então que Eduardo Sá não tardará a desculpar os marginaizinhos de Lloret del Mar com os seus modelos pedagógicos tão compreensivos e pós-modernos.

Também esta semana um dirigente futeboleiro fez considerações de muito mau gosto sobre a Comissária da PSP que coordenou as operações de segurança do SLB-FCP. Na linha de Eduardo Sá, com toda a razão: há que confrontar a autoridade, seja em que moldes for.

No dia em que apanharem duas bofetadas no focinho, mudam de opinião.