Articles for Julho 2007

O exemplo vem de cima

Catarina, 14 anos, já entrou nos Morangos com açúcar e costuma ser chamada pela agência de casting onde está inscrita para fazer figuração em novelas ou em anúncios. Desta vez foi um pouco diferente: ela e mais nove colegas da NBP Casting foram contratados para fazer figuração na apresentação do Escola – Plano Tecnológico da Educação.

“Chamaram-me e eu vim”, diz Catarina, que vai receber 30 euros por uma manhã de trabalho. Há um funcionário do Ministério da Educação que interpreta o papel de professor e aos miúdos cabe representar os alunos interessados que sabem usar as novas tecnologias. “A Ana foi à pastelaria e comprou 12 bolos. Em casa, a família comeu metade. Quantos comeram?” Seis, claro. Foi, diz Ana Rita, de sete anos, um dos papéis mais fáceis da sua curta carreira: “Já entrei na Ilha dos Amores. E gosto muito de computadores.”

Interpelados sobre o assunto, o primeiro-ministro José Sócrates e a ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues não se mostraram preocupados por estarem a estimular o trabalho infantil. “O evento foi organizado por uma empresa que é profissional e por isso quis mostrar como funciona o equipamento”, explicou a ministra. No final da apresentação, Sócrates congratulava-se pelo Plano Tecnológico: “com este projecto, o Estado cumpre o seu dever de liderar, de mostrar o caminho”. Embora o Estado nem sempre dê o melhor exemplo.

in DN

O povo

O SAP do Seixal fechou.

A notícia é apenas mais uma e aparentemente não conta com mais do que a nossa resignação.

Mas o que me preocupa, o que no deveria fazer pensar, é que aquela gente que às tantas da madrugada encontrou o SAP inesperadamente fechado antes da data prevista é a gente do povo. São idosos, são pobres, são desprotegidos perante o Estado, pois praticamente não têm voz.

Simultaneamente, ficamos  a saber que o Estado está a congelar os certificados de aforro daqueles  que têm dívidas ao fisco.

A impressão que fica é que os Bancos e as companhias financeiras vão acumulando recordes consecutivos de lucros (veja-se o caso dos lucros fabulosos da especulação bolsista no primeiro trimestre deste ano) enquanto que os idosos, os pobres, os desprotegidos, vão ficando cada vez mais entregues à sua sorte.

Que justiça social é esta?