Articles for Outubro 2008

Texto 026 – O que é a socialização?

«Entenda-se por socialização a dinâmica da transmissão de cultura, o processo pelo qual os homens aprendem as regras e as práticas dos grupos sociais. A socialização é um dos aspectos de toda e qualquer actividade em toda a sociedade humana. Tal como aprendemos um jogo, jogando-o, também aprendemos a viver, vivendo. Somos sociali¬zados através das próprias actividades em que participamos.»

Peter Worsley, Introdução à Sociologia, Publicações Dom Quixote, 1976

Billy Elliot

de Stephen Daldry, 2000, 111 minutos

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JoiVEyCosEE&hl=en&fs=1]

Neste filme, o pai de Billy, mineiro em Durham, insiste para que o filho aprenda lições de boxe, actividade para a qual este não tem especial jeito. Um dia este assiste a uma aula de ballett e descobre a sua verdadeira vocação. Da crítica familiar à pressão social da comunidade, tudo enfrenta para realizar o seu sonho de pertencer ao Royal Ballett.

Recomendado para Psicologia e Sociologia, Módulo S2

Como fazer um comentário de texto em Filosofia?

Eis um pequeno excerto de um texto filosófico:

“O homem é homem só pela linguagem. Unicamente pela  linguagem chega o homem a tornar-se  consciente do seu mundo. A palavra não faz da realidade o nosso mundo. A palavra caracteriza o seu  modo de existência. Com as palavras, o homem vincula-se às coisas, (…) mas também se distancia delas (…) e atribui-lhes significação”

Como se faz um comentário?

Há muitas técnicas possíveis para estruturar um “comentário de texto”.  Na disciplina de Português é usual serem estudadas várias dessas técnicas. Uma vez que não as vamos estudar todas, optamos por uma adaptação daquela que é sugerida por Jacqueline Russ, no livro “Les méthodes en philosophie”:

1. Tema abordado no texto a comentar
2. Problema filosófico a que o autor procura responder
3. Posição do autor (tese) sobre esse problema
4. Justificações (argumentos) apresentadas no texto  para defender essa posição
5. Explicitação dos conceitos usados pelo autor (implica recorrer aos conhecimentos estudados)
6. Eventuais problemas, dúvidas ou objecções que a posição do autor levante (opinião pessoal do aluno, racionalmente fundamentada)

Assim, no caso do texto presente nesta questão, poderíamos elaborar um comentário obedecendo a esta estrutura:

[NOTA: Para facilitar a compreensão do esquema de comentário, apresenta-se a mesma numeração proposta para estruturação da resposta; obviamente, essa numeração é absolutamente desnecessária quando se redige a resposta num  qualquer exercício escrito.]

1. O  excerto apresentado refere-se  à importância antropológica da linguagem.
2. O autor depara-se com um problema filosófico fundamental, que é o de saber o que é o Homem e qual a importância da linguagem na sua definição.
3. Segundo o autor, o Homem só é Homem pela linguagem, pois …
4. … (i) é a linguagem que caracteriza o seu modo de ser, (ii) é pela linguagem que o Homem se torna consciente do seu próprio mundo e (iii) é a linguagem que permite ao Homem um distanciamento face ao mundo, atribuindo-lhe significação.
5. Esta palavras do autor significam que (i) só o Homem possui uma linguagem deste tipo – uma linguagem simbólica, que lhe permite a referência a objectos ausentes e não materializáveis: o animal não possui essa capacidade de referência à realidade, pelo que a linguagem é o traço distintivo entre o Homem e o animal. Por outro lado, (ii) esse tipo de linguagem a que o ser humano tem acesso permite-lhe perceber as causas e as consequências dos seus actos: o Homem tem consciência de si mesmo, tem, consciência do que faz – porque faz e para que faz. Ao animal, pelo carácter concreto da sua linguagem, essa tomada de consciência é totalmente inacessível, pois só pode referir-se a situações presentes: nenhum animal reflecte sobre o passado ou projecta o  futuro, coisa que o ser humano é capaz de fazer. Em último lugar, (iii) há que referir que  é através da linguagem que, pelo poder da simbolização, o Homem se afasta da realidade, no sentido em que não precisa de ter a realidade a que se refere presente perante os seus olhos, pois o carácter abstracto e simbólico da sua linguagem permite a construção de um conhecimento teórico e não meramente prático sobre a realidade: o ser humano constrói diversas formas de conhecimento sobre a realidade, apoiando-se na linguagem como estrutura de um discurso racional ou afectivo sobre o mundo que o rodeia.
6. Pessoalmente, a) concordo…  /  b) não concordo…
a) … concordo com o autor pois, como já foi referido na resposta anterior, existem diversos traços distintivos entre a linguagem humana e a linguagem animal, pelo que a linguagem será, seguramente, uma forma possível de designar o que é o Homem, pois trata-se de uma capacidade especificamente humana. Repare-se, por exemplo, que das várias funções inerentes à linguagem, os animais são incapazes de possuírem uma função metalinguística, isto é, a referência linguística ao próprio código: esse é um território exclusivamente humano.  Ainda assim, podem surgir algumas dúvidas/interrogações/problemas a que este excerto não responde, tais como: se descobrirmos que essa distinção linguística não é tão evidente, teremos de mudar a nossa própria concepção do que é o ser humano? Se a capacidade simbólica for exclusiva do ser humano, que reacção teremos perante um ser humano (por exemplo, um microcefálico) que não possui essa capacidade? Essas são questões a que o texto não  permite responder.
b) … não concordo com o autor, pois nem sempre a linguagem simbólica é exclusiva do ser humano: estudos com chimpanzés vieram levantar a questão de saber se alguns animais, nomeadamente os primatas superiores, poderão (ou não) aprender em contacto com os humanos a utilizar uma linguagem gestual, dado que não possuem cordas vocais semelhantes às humanas. A ser assim, a linguagem deixaria de ter  o papel fulcral na distinção Homem/animal, deitando por terra a opinião do autor.

[Nota: as objecções, dúvidas e problemas são  tratadas na aula, mas podem resultar unicamente da capacidade reflexiva de cada um]

Texto 025 – Preconceito e Discriminação

Embora o conceito de raça seja moderno, o preconceito e a discriminação são uma constante da história universal e é necessário, antes do mais, fazer a distinção entre as duas ideias. O PRECONCEITO refere-se a opiniões ou atitudes partilhadas por membros de um grupo acerca de outro. As ideias preconceituosas são, muitas vezes, baseadas mais em rumores do que em provas claras; opiniões que resistem à mudança mesmo face a novas informa­ções. As pessoas podem ter preconceitos favoráveis relativos aos grupos com os quais se identificam e preconceitos negativos face a outros. Alguém que tem preconceitos contra determinado grupo recusará atender imparcialmente os seus membros.

A DISCRIMINAçÃo diz respeito ao comportamento tido em relação a outro grupo. Pode detectar-se em acções que negam aos membros de um grupo oportunidades que são dadas a outros, como, por exemplo, quando a um negro é recusado um emprego disponível para um branco. Embora o preconceito esteja frequentemente na base da discriminação, os dois podem existir separadamente. As pessoas podem ter ideias preconceituosas e não agir em conformi­dade. Também é igualmente importante ter em conta que a discriminação não deriva necessá­ria e directamente do preconceito. Por exemplo, uma pessoa branca que queira comprar uma casa pode inibir-se de adquirir a propriedade em bairros predominantemente negros, não por causa de atitudes hostis que possa sentir em relação às pessoas que vivem nesses bairros, mas em função da sua preocupação com a desvalorização da propriedade nessas áreas. Neste caso, as atitudes de preconceito influenciam a discriminação, mas de uma forma indirecta.

Texto 024 – A opção do Estado Novo sobre o conteúdo do ensino

«O Estado Novo, não podendo isolar-se em absoluto das novas exigências, teve de escolher (…). Amparando-se na contraposição entre a “instrução” e a “educação”, aquela como treino do intelecto e esta como formação do carácter, valorizou a função educativa da escola em detrimento da sua finalidade instrutiva. Destinada a incutir a “virtude”, e não a propiciar o treino profissional ou a transmitir conhe¬cimentos úteis, a escola passa a ser concebida mais como instrumento vantajoso de doutrinação do que local de aprendizagem para a vida profissional.»

Medina Carreira, O Estado e a Educação, Cadernos do Público, n.° 7, s/d

Texto 023 – Definição de “velhice”

A velhice deve ser compreendida como uma construção social produzida pelos quadros sociais, perpetuamente renegociada e redefinida em função desses quadros. não pode ser reduzida a uma realidade biológica feita de usuras e de incapacidades, que resultam do processo contínuo da desgenerescência. Cada sociedade, em cada período da história, reinterpreta socialmente as diferenças biológicas e cronológicas que separam os indivíduos, a fim de elaborar a organização social do ciclo de vida e de atribuir papéis e estatutos sociais específicos a cada escalão de idade. Os papéis e os estatutos dos velhos foram flutuantes ao longo da história (Minois 1987). A velhice nas sociedades pré-industriais não foi sistematicamente dotada de um estatuto prestigioso em virtude da valorização da sua sabedoria e da sua experiência. Se o advento da sociedade industrial se traduziu, sobretudo, por uma degradação do estatuto social dos velhos, este movimento não envolveu todas as classes sociais desta sociedade com a mesma força. Podemos encontrar uma ilustração disso mesmo no facto de a entrada na velhice, identificável na nossa sociedade pelo acesso ao estatuto de inactivo, não se verificar na mesma idade em todas as classes sociais. A perda da inserção social e a redução do sistema de funções, ou mesmo “a morte social”, intervêm mais cedo para as classes populares que para as classes superiores, sendo estas últimas susceptíveis de pôr a render o conjunto dos seus recursos sociais para prolongar os seus papéis e as suas funções da idade adulta (Guillemard 1971). O limiar da velhice é pois flutuante em função das sociedades, e, no interior de uma mesma sociedade, segundo a classe a que se pertence. É preciso sublinhar que o desenvolvimento dos sistemas de reforma que acompanham o florescimento da sociedade industrial levou a fazer da idade da reforma um dos limiares significativos da entrada na velhice. Nestas sociedades, a velhice ganhou os contornos da reforma. Mas, progressivamente, novos recortes interiores à última etapa da vida emergiram, tais como a terceira e a quarta idades, que traduzem tanto o prolongamento deste período da vida (na França, a esperança de vida aos 60 anos é da ordem dos 20 anos, INSEE, 1985) como a tomada em consideração da velhice como problema social e não já como questão meramente privada e familiar. Nestas condições, a multiplicação das intervenções em favor da velhice levou a distinguir uma velhice dependente que tem a ver com as instituições médico-sociais, de uma velhice autónoma, que tem mais a ver com políticas de animação e de integração social (Guillemard 1980).

Raymond Boudon, “Dicionário de Sociologia”

Texto 022 – Definição de “discriminação”

Embora o termo implique apenas por si mesmo a faculdade de fazer distinções, ganhou em sociologia um sentido crítico. Designa as distinções feitas na vida social em detrimento de certos grupos, que são julgadas inaceitáveis pela maioria, porque violam as normas sociais e o princípio da igualdade perante a lei, ao mesmo tempo que certos subgrupos da população as justificam. É o caso dos comportamentos em relação à população negra nos Estados Unidos da América até aos anos 60; assim como das atitudes anti-semitas. Os critérios de discriminação variam segundo as sociedades e segundo as épocas. Na Índia moderna, que legalmente suprimiu o sistema das castas, os antigos intocáveis são discriminados por causa do passado, que continua vivo ao nível dos costumes. Nos Estados Unidos, a discriminação durante longo tempo exercida contra os negros tinha a sua origem na sua antiga condição de escravos. Um numerus clausus é imposto na Rússia à entrada nas universidades de alunos judeus e arménios. A discriminação pode fundar-se na raça, na religião, na origem nacional ou na cultura (Simpson, Yinger 1965). O facto de se ter podido definir a discriminação social como a maneira de tratar desigualmente indivíduos iguais mostra até que ponto se trata de um conceito estreitamente ligado à sociedade moderna, que põe a igualdade no centro dos seus valores: nas sociedades fundadas nas diferenças de estatuto ou de casta, a discriminação é um conceito neutro, descritivo, desprovido da conotação pejorativa que lhe atribuímos nas nossas sociedades.

Raymond Boudon, “Dicioário de Sociologia”

Texto 021 – Definição de “conformismo”

Adesão, consciente ou não, aos valores, normas e comportamentos predominantes no grupo de pertença ou de referência. O conformismo opõe-se ao desvio, ainda que o hiperconformismo possa ser considerado como uma forma de desvio: o recém-chegado com excesso de zelo será geralmente objecto de sanções. O conformismo é um tema recorrente ou implícito de toda a sociologia. A psicossociologia experimental estudou em laboratório, de maneira elementar mas precisa, a tendência para o conformismo. As experiências de S. Ach sobre a percepção puseram em evidência a pressão para a uniformidade de juízo que uma maioria unânime exerce sobre um sujeito ingénuo. As muito espectaculares experiências de S. Milgram (1974) revelaram a importância da submissão a uma maioria, sobretudo quando ela parece caucionada por uma autoridade científica. Mas pode também haver influência recíproca, como mostrou a experiência clássica de M. Sherif sobre a formação das normas. A normalização das respostas, face a um estímulo ambíguo, traduz uma tendência para o ajustamento mútuo na interacção entre os sujeitos, que pode compreender-se como uma estratégia de evitamento do conflito.

Raymond Boudon, “Dicionário de Sociologia”