Articles for Dezembro 2009

O caso Phineas Gage

Gage trabalha para os caminhos-de-ferro Rutland & Burlington e tem a seu cargo um grande número de homens, uma «brigada» cuja tarefa consiste em assentar os carris da linha de caminho-de-ferro através de Vermont.
E é agora que tudo se vai desenrolar. São 4 horas e 30 minutos de uma tarde escaldante. Gage acabou de colocar a pólvora e o rastilho num buraco e disse ao homem que o estava a ajudar para colocar a areia. Alguém atrás dele estava a chamá-lo. Por um breve instante, Gage olha para trás, por cima do ombro direito. Distraído, e antes de o seu ajudante introduzir a areia, Gage começa a calcar a pólvora directamente com o bastão de ferro. Num ápice, provoca uma faísca na rocha e a carga explosiva rebenta-lhe directamente no rosto.
A explosão é tão forte que toda a brigada está petrificada. São precisos alguns segundos para nos apercebermos do que se passa. O estrondo não é normal e a rocha está intacta, O som sibilante que se ouviu é também invulgar, como se se tratasse de um foguete lançado para o céu. Não é porém de fogo-de-artifício que se trata. É antes um ataque, e feroz, O ferro entra pela face esquerda de Gage, trespassa a base do crânio, atravessa a parte anterior do cérebro e sai a alta velocidade pelo topo da cabeça. Aterra no chão a mais de 30 m de distância, envolto em sangue e massa cerebral. Phineas Gage é projectado para o chão. Está agora atordoado, silencioso mas consciente.

Sobreviver à explosão com uma tal ferida, ter sido capaz de falar, caminhar e permanecer consciente imediatamente após o acidente — tudo isto é deveras surpreendente. Mas igualmente surpreendente será também a sobrevivência à inevitável infecção que está prestes a desenvolver-se na ferida.
A narrativa de Harlow, o médico de Phineas Gage, descreve o modo como Gage recuperou as suas forças e como o seu restabelecimento físico foi completo. Gage podia tocar; ouvir, sentir, e nem os membros nem a língua estavam paralisados. Tinha perdido a visão do olho esquerdo, mas a do direito estava perfeita. Caminhava firmemente, utilizava as mãos com destreza e não tinha qualquer dificuldade assinalável na fala ou na linguagem. No entanto, tal como Harlow relata, o “equilíbrio, por assim dizer, entre as suas faculdades intelectuais e as suas propensões animais fora destruído”. As mudanças tornaram-se evidentes assim que amainou a fase critica da lesão cerebral. Mostrava-se agora caprichoso, irreverente, usando por vezes a mais obscena das linguagens, o que não era anteriormente seu costume, manifestando pouca deferência para com os seus colegas, impaciente relativamente a restrições ou conselhos quando eles entravam em conflito com os seus desejos, por vezes determinadamente obstinado, outras ainda caprichoso e vacilante, fazendo muitos planos para acções futuras que tão facilmente eram concebidos como abandonados. Sendo uma criança nas suas manifestações e capacidades intelectuais, possui as paixões animais de um homem maduro”. A sua linguagem obscena era de tal forma degradante que as senhoras eram aconselhadas a não permanecer durante muito tempo na sua presença, não fosse o caso de ele ferir as suas sensibilidades, As mais severas repreensões vindas do próprio Harlow falharam na tentativa de fazer que o nosso sobrevivente voltasse a ter um bom comportamento.

António Damásio, O Erro de Descartes, Europa-América pp. 24-28
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Comportamento e Biologia

O soldado russo Zasetsky sofreu aos vinte e três anos urna lesão na cabeça provocada por urna bala que lhe perfurou o lado esquerdo do crânio, Tal lesão provocou-lhe urna série de mudanças repentinas no comportamento.
Ao ser tratado durante mais de vinte e cinco anos pelo brilhante médico-psicólogo russo Alexander Luria, Zasetsky elaborou um diário das suas percepções. Nas suas declarações nos inspiramos agora para ver corno o ferimento o afectou nas suas aptidões.
Uma das alterações que Zasetsky sofreu foi a visão fragmentada. Por palavras suas, “desde que fui ferido nunca mais pude ver um objecto como um todo. Ainda hoje, tenho de completar com a imaginação uma porção de coisas acerca dos objectos, dos fenómenos ou de qualquer outra coisa do mundo. Isto é, tenho que as representar na minha mente e tentar relembrar-me delas como plenas e completas – após ter uma oportunidade de as olhar novamente, tocá -las ou obter delas alguma imagem “.
As partes do próprio corpo de Zasetsky também lhe pareciam deformadas. Como ele dizia, “às vezes, quando estou sentado, sinto repentinamente a minha cabeça do tamanho de uma mesa, enquanto as minhas mãos, os meus pés e o meu tronco se tornam muito pequenos. Quando fecho os olhos não tenho a certeza onde está a perna direita; por alguma razão eu pensava, e até mesmo sentia que estava mais ou menos em cima do ombro, ou mesmo acima da cabeça”
A percepção do espaço também foi afectada. “Desde que fui ferido tenho tido, às vezes, dificuldade em me sentar numa cadeira ou num sofá. Em primeiro lugar tenho de ver onde está a cadeira, mas, ao sentar-me, procuro agarrá-la de repente, com medo de cair ao chão. Isto acontece às vezes porque descubro que a cadeira está mais afastada do que eu pensava “
Também as aptidões intelectuais de Zasetsky tinham sido profundamente prejudicadas. Tinha perdido as capacidades de ler e de escrever. Sentia dificuldade em acompanhar o sentido de uma conversa ou em compreender histórias muito simples. Embora tivesse sido um excelente aluno e tivesse feito pesquisas em vários campos da ciência e da técnica, nunca mais pôde lidar com a gramática, com a aritmética, com a geometria ou com a física.
Tentava reaprender, desesperadamente, começando pelo início e procurando meios de compensar as aptidões perdidas. Mas, apesar das recapitulações repetidas à mesma matéria, Zasetsky tinha dificuldade em compreender mesmo os conceitos básicos mais rudimentares. Descobriu que tinha de se servir de desenhos e esboços como informação. Sem eles, as explicações não lhe entravam.
É que os ferimentos cicatrizaram, mas as células cerebrais lesadas não tornam a crescer (.). Embora Zasetsky trabalhasse com afinco durante mais de vinte e cinco anos para recuperar as aptidões perdidas, não conseguiu.”
Linda Davidoff, Introdução à Psicologia
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Evolução Humana

Como evoluiu a espécie humana? Como competiam os nossos antepassados com os outros animais pela sobrevivência? Este pequeno documentário pode ser uma boa forma de abordar o tema.

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O homem que confundiu a mulher com o chapéu

O Dr. P. era um músico distinto, muito conhecido por ter sido cantor durante bastantes anos e por, mais tarde, ter começado a ensinar na escola de música local. Foi aí, em relação aos seus alunos, que se reparou pela primeira vez em alguns dos seus estranhos problemas. As vezes, quando um aluno intervinha nas aulas ele não o reconhecia, mais exactamente, não reconhecia o seu rosto. Assim que o aluno começava a falar o Dr. P. reconhecia-o pela voz. Estes incidentes tornaram-se cada vez mais frequentes causando vergonha, perplexidade, medo e por vezes situações cómicas porque o professor não só não reconhecia os rostos como os via onde eles não existiam. Como se fosse um pitosga a passear na rua, fazia festas nas bocas de incêndio e nos taxímetros convencido de que estava a acariciar crianças, dirigia-se educadamente aos candeeiros, e ficava muito admirado por não receber resposta. (…)
Bastaram apenas alguns segundos para perceber que não havia nele traços de demência na acepção vulgar do termo. Era um homem culto, educado, que conversava com à-vontade, imaginação e humor. Não consegui perceber porque razão lhe tinham recomendado a nossa clínica. No entanto havia algo um pouco estranho. (…) Afundamos as nossas inquietações na rotina calma de um exame neurológico: força muscular, coordenação, reflexos, tonicidade… foi ao examinar os seus reflexos apenas ligeiramente anormais do lado esquerdo que aconteceu a primeira coisa estranha. Eu tinha-lhe tirado o sapato do pé direito para lhe arranhar a planta do pé com unia chave, um teste de reflexos que parece frívolo, mas que é essencial, depois, desculpando-me com o pretexto de ter de mostrar o meu oftalmoscópico deixei-o calçar-se sozinho. Fiquei admirado quando vi que ele, ao fim de um minuto, ainda não se tinha calçado.
 “Posso ajudar ?“, perguntei.
 “Ajudar quem? A fazer o quê?
 “Ajuda-lo a pôr o sapato ?“    –
 “Ah “, exclamou “tinha-me esquecido.” e acrescentou sotto voce .“ o meu sapato? O sapato?” Parecia estar baralhado.
“Sim, o seu sapato”, repeti, “não o quer calçar ?“
Ele continuou a olhar para o chão, mas não na direcção do sapato, com uma concentração intensa mas mal colocada. Finalmente fixou o olhar no pé. “Mas isto é o meu sapato, não é ?“
Seria eu que não estava a ouvir bem ou ele que estava a ver mal? Ele pôs a mão no pé e repetiu: Isto é o meu sapato, não é ?“
“Não, isso é o seu pé. O seu sapato está ali.”
“Ah! Pensei que isso era o meu pé.”
Estaria a brincar? Estaria louco? Cego? Se este era um dos seus “enganos que eu já tinha visto.
Ajudei-o a calçar o sapato ( o pé) para evitar mais confusões. O Dr. P. estava impávido e sereno, talvez até divertido. Apressei o resto do exame.
Eu devo ter ficado assombrado mas ele parecia pensar que tinha feito bons testes.
Havia quase um sorriso no seu rosto. Parecia ter decidido que os testes tinham terminado e começou á procura do chapéu. Estendeu a mão e agarrou na cabeça da mulher para a tentar levantar e pôr na cabeça. Tinha confundido a mulher com um chapéu!
Em geral não reconhecia ninguém: nem a família, nem os colegas, nem os alunos, nem mesmo a si próprio. Reconheceu um retrato de Einstein porque se apercebeu do seu belo cabelo e bigode característicos.
Ele olhava para os rostos, mesmo o das pessoas mais chegadas como se fossem puzzles ou testes abstractos. Não se relacionava com eles nem os observava. Não havia rostos familiares vistos como um “tu”, eram apenas identificados como um conjunto de características, como uma “coisa”.
Um rosto, para nós, é uma pessoa (o espelho de uma pessoa), vemos a pessoa através do seu rosto, da sua persona. Mas para o Dr. P. não havia nem persona exterior nem uma pessoa por detrás do rosto. (…)
Nada lhe era familiar. Visualmente estava perdido num mundo de abstracções sem vida. Não tinha um mundo visual tal como não tinha imagem visual dele próprio. Sabia falar acerca das coisas mas não as via face a face.
O Dr. P. , por outro lado, funcionava precisamente como funciona uma máquina. Não apenas demonstrava a mesma indiferença de um computador face ao mundo visual mas, e isto era ainda mais impressionante, construía o mundo como um computador o constrói: através de pontos-chave e relações sistemáticas. Os esquemas podem ser identificados sem que a realidade seja de todo apreendida.
Como é que ele faz seja o que for? Perguntei-me. O que é que acontece quando vai à casa de banho, quando se veste, quando toma banho?
Faz tudo a cantar. Se há uma interrupção perde o fio à meada, pára completamente, deixa de reconhecer a roupa e o seu próprio corpo. Tem canções para tudo: para comer, para se vestir, para tomar banho… para tudo. Só consegue fazer aquilo que transforma em música.”
Sads, Oliver, O homem que confundiu a mulher com o chapéu
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