Articles for Maio 2017

Quando todos os nossos dados são tratados digitalmente, é possível manter algum anonimato?

6 passos para uma navegação mais segura:

1 Mantenha os sistemas operativos e as aplicações atualizados. Sempre que é detetada uma falha de segurança, as marcas lançam logo correcções para evitar intrusões. Use um antivírus e atualize-o frequentemente para estar preparado para enfrentar as ameaças mais recentes.

2 Não abra ligações ou anexos de mensagens de correio electrónico se não conhecer o remetente. Não permita a instalação de programas e aplicações de origem desconhecida pois podem conter vírus ou software malicioso para roubar informações.

3 Para fazer compras online, escolha uma loja conhecida e referenciada como legítima. Ao efetuar pagamentos através da internet, utilize cartões virtuais ou temporários e específicos para compras online. Não faça compras ou aceda ao site do seu banco em computadores públicos.

4 Antes de dar informações pessoais, confirme a política de privacidade da aplicação ou da página e leia os termos e as condições do serviço. Escolha palavras-passe difíceis.

5 Nas redes sociais, não aceite pedidos de amizade, não abra ligações nem ficheiros enviados por pessoas que não conhece. Pondere as informações que vai publicar. Partilhe apenas coisas que não se importe que sejam públicas. Em caso de dúvida: utilize o princípio de publicar apenas o que a sua mãe, os seus filhos e o seu chefe poderiam ver.

6 Se tiver crianças que usem o computador, instale um programa de filtragem de conteúdos.

Vivemos tempos acelerados. E estranhos. Numa era em que é comum partilhar na internet praticamente tudo o que pensamos e fazemos, se calhar já não faz sentido falar em esfera privada. Pelo menos para a maioria dos utilizadores das redes sociais. Quando os nossos rendimentos, propriedades, compras, relações, deslocações e até fichas médicas ficam registados e são tratados digitalmente em arquivos públicos e privados, ainda é possível manter algum anonimato?

A Via Verde e os chips antirroubo registam viagens, os cartões de crédito e de fidelização cadastram compras, os servidores de correio eletrónico, os motores de busca e as redes sociais monitorizam comunicações, páginas visitadas, preferências e contactos. E os smartphones, além de assinalarem chamadas de voz e mensagens escritas, dão a nossa localização exata em tempo real.

Portanto, para assegurar totalmente a privacidade teríamos de, no mínimo, evi­tar as estradas SCUT, fazer compras apenas em dinheiro, desligar a internet e usar um telemóvel obsoleto e com um cartão pré‑pago. Mas, mesmo assim, não escapa­ríamos à monitorização estatal dos rendi­mentos, compras, propriedades e até da­dos médicos e medicações prescritas pelo Serviço Nacional de Saúde.

Por isso, a resposta simples e imedia­ta à pergunta da entrada parece ser só uma: não. A não ser que tenhamos conhecimentos próximos do nível de um pirata informático ou estejamos dispostos a abdicar de várias comodidades do sécu­lo XXI, já não é possível manter o ano­nimato. Navegando um pouco mais longe, será então correto dizer que a privacida­de morreu, definitivamente? Aí, a respos­ta já é diferente: não necessariamente. Na verdade até existe privacidade neste nem sempre admirável novo mundo digital. Só que, na aldeia global onde agora vivemos, o conceito já não é o que era. Mas a culpa é mais das pessoas do que da tecnologia.

«Não há como negar que o conceito de privacidade está em mutação», diz Fátima Abreu Ferreira, psicóloga e investigado­ra da Universidade do Minho. «O desenvolvimento das novas tecnologias trouxe imensos benefícios, mas, para nos inscre­vermos nesses serviços, temos de abdicar de certos dados como o nome, o telefone ou a nossa localização geográfica.» É o preço que pagamos para usar as inovado­ras aplicações cibernéticas.

Além desses dados, há todo um outro conjunto de informações que, voluntá­ria ou involuntariamente, cedemos. Por exemplo, se enviarmos alguns e­-mails ­com a palavra «Amesterdão» ou pesqui­sarmos por esta cidade num motor de bus­ca, é quase certo que veremos nas nossas navegações posteriores cada vez mais anúncios relacionados com a cidade ho­landesa. Isto acontece porque, ao criar contas de e­-mail ou numa rede social, au­torizamos os prestadores desses serviços a recolherem todas as informações que julguem relevantes, incluindo as comunica­ções privadas. Estes dados são depois pro­cessados por algoritmos que encaminham anúncios específicos para os destinatários que revelaram potencial de ser seduzidos por eles.

ESTE É O VERDADEIRO E GRANDE negócio dos motores de busca: o armazenamento online de ficheiros, servidores de correio eletrónico e redes sociais. «Os serviços são grátis, mas as empresas não são beneméritas. Ganham milhões com as informações que as pessoas colocam nas suas redes», diz Clara Guerra, porta‑voz da Comissão Nacional de Proteção dos Dados (CNPD).

No mundo digital também não há al­moços grátis e as nossas informações são a contrapartida. Porém, a conta final não parece assustar os utilizadores. «Quando aderem, as pessoas dão um consentimen­to. Consideram que não estar numa rede social tem consequências negativas superiores do que ceder alguma da sua privacidade», diz Paulo Mota Pinto. Para o ex-juiz conselheiro do Tribunal Constitucional, esta cedência é «mais um fenómeno sociológico do que uma questão de Direito».

Todavia, nem sempre esse consentimento é feito como manda a lei. «Em alguns casos, as empresas não pedem autorização e dão informação pouco transparente», diz Clara Guerra. «Além disso, há termos e condições que não respeitam a legislação porque incluem cláusulas abusivas e são feitos para desincentivar a leitura.» A lei diz ainda que os dados devem ser recolhidos para fins específicos e legítimos e que as empresas devem reter apenas as informações adequadas e pertinentes para esse fim e não as ceder a terceiros sem consentimento. Mas, na prática, «muitas empresas não são completamente transparentes nem dizem o que fazem com os dados a que têm acesso»

MESMO ASSIM, para a maioria das pessoas, especialmente para os mais jovens, estar fora do mundo digital não é uma hipótese. «Para eles, as redes sociais e a disponibilização de conteúdos são ferramentas quotidianas, naturais. Tudo acontece online e o importante é fazer parte do grupo, mesmo correndo alguns riscos», explica Fátima Abreu Ferreira, que está a terminar um doutoramento em Psicologia da Justiça na Universidade do Minho com o tema «Vitimização online: os riscos de viver na era digital».

Até há vinte anos, convivia-se a volta da mesa do café. Hoje, graças à internet e à revolução digital, a mesa alargou-se aos quatro cantos do mundo. No fundo, é a concretização prática da aldeia global prevista em 1963 pelo sociólogo canadiano Marshall McLuhan, no livro A Galáxia Gutenberg.

Como seria de esperar, este novo plano comunicacional levou a uma explosão da partilha, tanto em quantidade como em qualidade. Para se ter uma ideia, o Facebook tem atualmente 1,55 mil milhões de utilizadores ativos e a média de conexões diárias em setembro foi de 1,01 mil milhões\1 de utilizadores – ou seja, uma em cada sete pessoas de todo o mundo. Outro dado impressionante: diariamente são publicadas 80 milhões de fotografias no Instagram, a famosa rede de partilha de imagens, com 400 milhões de utilizadores ativos.

Para muitos, a começar nos gurus das redes sociais, a reserva da vida privada parece não ter lugar nesta aldeia global. «Se tem alguma coisa que não quer que se saiba, talvez não devesse estar a fazê-la», disse, em 2009, numa entrevista à CNBC, Eric Schmidt, atual presidente executivo da Alphabet Inc., a empresa-mãe da Google. O criador do Facebook também não parece valorizar a privacidade, pelo contrário. Mathias Dopfner, CEO do grupo alemão de media Alex Springer, escreveu numa carta aberta em abril de 2014 que «a única frase ainda mais preocupante que a de Shcmidt é uma de Mark Zuckerberg», dita numa conferência em que os três estiveram presentes. Segundo Dopfner, quando questionado sobre que garantias de confidencialidade e proteção dos dados podia oferecer aos utilizadores da sua rede social, o fundador do Facebook respondeu: «Não percebo a sua pergunta. Se não tem nada a esconder, não tem nada a temer.»

Nuno Ribeiro, diretor regional para Portugal do Institut Fabernovel, também não vê grande mal na partilha de dados com as empresas, desde que haja responsabilidade. «Acredito que cause alguma preocupação para quem tenha segredos. A mim não me choca. Esses dados são importantíssimos para a empresa conhecer ao máximo o cliente e desenhar ou melhorar os seus produtos, experiências e serviços.» Mas o especialista em cultura digital considera que as empresas deveriam sempre partilhar o que estão a guardar e sabem de cada consumidor. «E desejável que haja transparência e que eu saiba o que eles sabem de mim.»

Os jovens também encaram a partilha como normal. «Para a geração digital, as plataformas públicas são extensões de aspetos privados», diz Fátima Abreu Ferreira. Não se pense, no entanto, que os adolescentes não têm nenhuma noção de privacidade. Eles conhecem o conceito, mas orientam-no conforme as suas prioridades. «Sabem manobrar o perfil e criar páginas falsas para se protegerem. Mas fazem-no principalmente para garantir privacidade dos pais e dos educadores», explica a investigadora.

À medida que vamos navegando na internet vamos produzindo um enorme conjunto de conteúdos e deixamos, ativa ou passivamente, um rasto de informações. Graças à evolução tecnológica, esta «pegada digital» assume-se cada vez mais como ilimitada e eterna. Este potencial infinito parece escapar à maioria dos internautas. «Muitos não têm consciência da conservação da informação. A rede não esquece, mas muitos só o percebem a posteriori», diz Paulo Mota Pinto.

Normalmente, as redes sociais e prestadores de serviços permitem fazer um opt out, ou seja, apagar das bases de dados todos os registos de determinado utilizador. E existem mecanismos judiciais para reagir contra o uso indevido ou a publicação abusiva de fotografias e informações. Mas «as pessoas não dão muito valor a isso e só em casos extremos é que os utilizam», garante Paulo Mota Pinto.

«A maior parte dos jovens sabe que está a correr um risco antecipado ao efetuar uma partilha, mas não estão conscientes da sua grandeza», diz a investigadora Fátima Abreu Ferreira. E é mais grave quando ainda estão a construir-se como pessoas. Ou seja, podem estar a cristalizar na internet valores que, se calhar, vão rejeitar pouco tempo depois. Mas a pegada ficou e isso pode prejudicá-los, por exemplo, em termos de empregabilidade. Além disso, mesmo num grupo fechado de uma rede social, existe a hipótese de invasão, cópia e apropriação indevida. E, uma vez na rede, mesmo que sejam rapidamente apagados, «há sempre a possibilidade de os conteúdos voltarem a aparecer» diz Clara Guerra, da CNPD. «A internet tem memória de elefante.»

É precisamente esta memória ilimitada que tem levado ao crescimento e ao refinamento das bases de dados. Hoje, as empresas e os Estados já têm acesso a uma quantidade de informação que, caso fosse impressa em papel, daria para encher milhares e milhares de Torres do Tombo. São arquivos que não param de crescer porque a recolha de dados até pode estar a abrandar, mas não vai parar e está cada vez mais inteligente. «Estamos a passar da era de big data para a de smart data. Da recolha do máximo de informação para a recolha seletiva e a análise apenas das três ou quatro variáveis mais importantes para a tomada das decisões», explica Nuno Ribeiro. Mas, com aplicações cada vez mais inteligentes e diversificadas, «há cada vez mais dados e cada vez mais íntimos». E com consequências imprevistas. Por exemplo, se uma seguradora tiver acesso aos dados de uma aplicação de telemóvel que mede o batimento cardíaco do utilizador, pode calcular se ele é um potencial cliente de risco e recusá-lo. O mesmo sucederá caso inspecione o histórico da internet de um proponente e veja que ele consulta muitos sites sobre hipertensão ou outra doença grave.

Graças ao avanço vertiginoso da tecnologia, o tratamento dos dados assume uma dimensão que pensaríamos só ser possível no domínio da ficção científica. Antecipar padrões de consumo ou de comportamento perante a utilização de sites ou ferramentas pode já não ser uma realidade tão distante. E o mesmo se aplica aos softwares de reconhecimento facial que estão cada vez mais apurados. «Permitem correr toda a internet, numa procura transversal, e agregar as informações em torno de uma cara», diz a porta-voz da CNPD. Ou seja, basta alguém publicar uma fotografia onde apareçamos, mesmo que em segundo plano e sem o nosso consentimento, para as informações que ela traz ficarem agregadas a um único perfil, podendo ligar perfis profissionais, pessoais e anónimos. Ou seja, a partir daquela fotografia da festa de Natal da empresa que alguém publicará no Facebook por estes dias, é possível que outros fiquem a saber onde trabalhamos; se for num restaurante, onde vamos almoçar; se for em grupo, com quem nos damos e por aí em diante. «São uma mina para as empresas privadas e, mais ainda, para as autoridades policiais», diz Clara Guerra. É certo que estas ferramentas serão muito úteis para, por exemplo, apanhar um criminoso em fuga, mas, com a desculpa do combate ao terrorismo ou ao crime económico, também podem ser usadas para uma vigilância maciça dos cidadãos.

QUASE TODOS OS ESPECIALISTAS e analistas concordam que a informação é a mercadoria mais valiosa do século XXI. Porém, mais importante ainda do que o seu potencial económico, esta capacidade de recolha e tratamento de dados confere aos Estados uma ascendência quase ilimitada sobre os cidadãos. Convém, por isso, questionar o que poderá acontecer caso ela caia nas mãos erradas. É que as bases médicas informatizadas teriam dado imenso jeito às teorias da pureza da raça e da eugenia nazis.

Paulo Mota Pinto reconhece que há Estados que «utilizam estas ferramentas, no limite da ilicitude, como meio de vigilância», mas prefere não comentar mais este tópico por ser membro do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa. Já Clara Guerra garante que, «em Portugal, não se verifica uma vigilância maciça por parte dos serviços secretos».

O problema é que vigora a globalização dos serviços, das comunicações e da economia. «Se uma empresa não está no nosso território, não podemos impedi-la de ceder as informações dos cidadãos», queixa-se a Porta-voz da CNPD. Por isso, Nuno Ribeiro crê que a grande responsabilidade está mais do lado das organizações e das empresas do que dos Estados. «Têm de ser elas próprias a ter bom senso e a garantir a privacidade da informação que lhes é confiada.» Com tudo o que isso implica.

Mas, em última análise, a derradeira palavra é sempre dos utilizadores. Nós, os utilizadores. E somos nós que optamos por disponibilizar, ou não, os nossos dados. «O que conta é o uso que fazemos da ferramenta», diz a investigadora Fátima Abreu Ferreira. «Por isso, tem de haver maior consciencialização do que pode advir de um mau uso.» Clara Guerra concorda. «A tecnologia, em si mesma, é neutra.» Por isso, e respondendo novamente à pergunta do início deste texto, sobre a possibilidade de manter algum anonimato: sim, é possível. Mas, se quisermos garantir o anonimato total, então é melhor desativarmos já o perfil do Facebook. Sem pensar duas vezes.

[Este artigo foi publicado em Dezembro de 2015 na edição em papel da Notícias Magazine]

 

Fonte: http://www.noticiasmagazine.pt/2017/o-fim-da-privacidade/

 

Jornal britânico “The Guardian” revela documentos internos do Facebook com os critérios para aprovação de conteúdos.

O jornal “The Guardian” teve acesso a dezenas de documentos internos do Facebook e revela como a maior rede social do mundo lida com conteúdos relacionados com sexo, terrorismo, violência e discursos de ódio.

E esses ficheiros agora vindos a público revelam que o Facebook tem que lidar, todos os meses, com milhares de potenciais casos de chantagem sexual e publicação de vídeos íntimos por vingança.

De acordo com o “Guardian”, no espaço de um mês foram registados 54 mil potenciais casos deste género.

Em Janeiro deste ano, o Facebook fechou mais de 14 mil contas relacionadas com estes tipos de abuso sexual. Em 33 situações estavam envolvidas crianças.

A maior rede social do mundo dependente das denúncias dos utilizadores sobre conteúdos ofensivos, o que significa que a escala do problema pode ser ainda maior.

Facebook deixa “bater em miúdos gordos”, mas censura “alguém dê um tiro a Trump”

Comentários como “alguém dê um tiro a Trump” são censurados pelo critérios do Facebook, porque como chefe de Estado o Presidente dos Estados Unidos faz parte das chamadas “categorias protegidas”, revela o “The Guardian”.

Mas os utilizadores da rede social podem escrever “vamos bater em miúdos gordos”, “partir o pescoço a uma gaja” ou “vai-te lixar e morre”, porque não representam “ameaças credíveis.”

Vídeos de mortes violentas, apesar de serem catalogados de “perturbadores”, nem sempre são apagados porque podem servir para chamar à atenção para problemas como as doenças mentais, argumenta o Facebook nos memorandos agora revelados.

Algumas fotografias de abusos não-sexuais e de bullying contra crianças não têm que ser apagadas, a menos que haja sadismo ou um elemento de celebração, adianta o “Guardian”.

Vídeos de abortos podem ser divulgados, desde que não contenham nudez, e imagens de abusos contra animais também.

O Facebook permite também que os seus utilizadores transmitam, em directo, tentativas de autoflagelação por não querer “censurar ou punir as pessoas em perigo”.

Fonte da empresa tecnológica disse ao “Guardian” que “o Facebook não consegue controlar os conteúdos” publicados, porque “cresceu muito, muito depressa”. Actualmente, tem cerca de dois mil milhões de utilizadores registados.

http://rr.sapo.pt/noticia/84315/investigacao_revela_milhares_de_casos_de_chantagem_sexual_por_mes_no_facebook

 

grupos

O SOL entrou no grupo onde foi partilhado o polémico vídeo da Queima das Fitas do Porto. Com 44 mil membros, a partilha de fotos com conteúdos sexuais explícitos, mensagens privadas e comentários de assédio são frequentes. Há até fotos de mulheres captadas na rua ou em centros de saúde.

A semana ficou marcada pela partilha de um vídeo de teor sexual captado num autocarro, no Porto, na semana da Queima das Fitas. As imagens que mostram uma jovem a ser masturbada não deixam claro a existência de um abuso sexual e, mesmo que tal tenha acontecido, a investigação está dependente de participação da vítima, o que não se verificou quando as autoridades identificaram a rapariga do vídeo. O caso veio a público depois de o Correio da Manhã ter decidido publicar o vídeo, na quarta-feira. Desde segunda que o SOL tinha alertado as autoridades para a existência deste tipo de imagens a circular na internet. A queixa chegou de mulheres que se tinham apercebido da existência de ‘grupos secretos’ de homens nas redes sociais, onde se partilham imagens sexuais explícitas. Um dos conteúdos que estava a gerar maior preocupação era precisamente o vídeo do Porto.

Um submundo nas redes sociais

As imagens captadas na semana passada no Porto começaram por ser partilhadas pelo WhatsApp e mais tarde num grupo secreto do Facebook com o nome #IMASOLDIER. Por cá, esta funcionalidade da rede social não tem sido muito falada, mas está longe de ser novidade. Existem três tipos de grupos no Facebook: os públicos (em que todos os utilizadores conseguem aceder ao conteúdo); os ‘fechados’ (é possível encontrá-los nas pesquisas, ver algumas publicações mas, para ter acesso a tudo, é preciso ser convidado por um membro) e por fim os ‘secretos’. Estes não aparecem na lista de opções quando se pesquisa pelo seu nome na rede social e é impossível ver, por isso, qualquer conteúdo ou lista de membros. Só se tornam visíveis após convite.

Apesar do secretismo, podem ser criados por qualquer pessoa. Há quem os use para manter a família em contacto, para organizar festas. Há grupos de mães que partilham artigos sobre maternidade e outros de troca de roupa e ofertas de trabalho. Mas há outros que parecem não ser tão bem intencionados e que aproveitam o anonimato e a impossibilidade de serem encontrados para partilhar conteúdos que facilmente seriam censurados se estivessem em espaços abertos. Um jovem islandês, ouvido pelo SOL, conta que, no seu país, esta é já a melhor forma de ter acesso a droga – através de mensagens em código, fazem-se as encomendas longe do olhar das autoridades.

Já uma publicação no Cleveland News, em 2016, comparava a cultura do «mundo secreto dos grupos secretos do Facebook» com o clássico filme  de David Fincher Fight Club, conhecido pelo célebre lema «a primeira regra do Fight Club é não falar sobre o Fight Club». No mesmo ano, a BBC publicou um artigo que denunciava a partilha de imagens de crianças por pedófilos nestes mesmos grupos. Como as configurações da rede social permitem a invisibilidade, a liberdade de partilha de conteúdos é infinita. 

E o que faz o Facebook? O chefe de políticas públicas da rede social disse à BBC que estão empenhados em remover conteúdos impróprios. Seguem, para isso, algumas pistas, como os nomes dos grupos, a que os administradores da rede têm a acesso apesar de não serem visíveis para o resto dos utilizadores. Nomes com uma indicação clara de seu conteúdo, que contêm imagens pornográficas e altamente sugestivas, muitas com referência a crianças e comentários sexualmente explícitos são alguns sinais de alerta.

Na investigação que o SOL começou a ter acesso a publicações de vários grupos secretos, não foram encontrados conteúdos pornográficos com crianças. Porém, as partilhas continham fotografias e vídeos explícitos de atos sexuais, mulheres anónimas na rua e ainda comentários com assédios. 

Por questão de respeito às visadas dessas publicações, o SOL opta apenas por partilhar alguns dos comentários que encontrou nesse tipo de grupos, incluindo no #IAMSOLDIER, ocultando a identidade dos intervenientes. Refletem o ambiente destes fóruns secretos. Numa das imagens, partilhada em fevereiro, aparecem duas militares da GNR num balcão da Caixa, com o comentário «marchavam acima da lei». Noutra, uma jovem de biquíni na praia. «Esta inimiga gosta de andar na ofensiva. Alguém para abater».

Depois do acesso ao grupo #IAMSOLDIER e ao grupo Chicks.before.dicks , tendo ainda acesso  a publicações do grupo V de Vagina e Interdito a Homens constata-se uma clara diferença no conteúdo partilhado em fóruns de elementos femininos e masculinos. 

Embora nos grupos compostos por mulheres haja a partilha de fotografias de homens famosos em poses sexy e apesar de se trocarem piadas sobre os homens, o SOL não encontrou nesses grupos a partilha de imagens gráficas ou vídeos sexuais, nem de homens fotografados na rua seguidos de comentários de assédio. No #IMASOLDIER, com 45 mil membros e interdito a mulheres, isso é frequente.

Ontem o grupo desapareceu do Facebook – ao pesquisar, os membros tinham a indicação de que a página não estava disponível. Mas, numa página onde o grupo vende merchandising – como camisolas a dizer #IMASOLDIER – fizeram saber que vão continuar. «Esta página vai ser apagada durante um tempo, apenas adiram à página seguinte soldados dentro de trinta minutos encerro a página», lia-se na publicação, que pedia para os seguidores aguardarem ordens no «no armazém de soldados».

Quem está por detrás dos grupos

O SOL conseguiu falar com um dos administradores do grupo. O homem de 28 anos, que pediu para não ser identificado, garante que o vídeo da jovem na Queima das Fitas só esteve online no #IAMSOLDIER durante duas horas e por erro de triagem. Este responsável reconheceu, ainda assim, que existe conteúdo impróprio no grupo, mas que se sente impotente para gerir as publicações de 45 mil homens. 

Ao todo, o grupo tinha 11 administradores e moderadores. Para este membro, ouvido pelo SOL, a  presença neste fórum faz sentido por ser um local de partilha de assuntos masculinos e conteúdos divertidos e recusa qualquer intenção dos autores de promover a difamação de mulheres.

Sensação de insegurança

Na prática, porém, é isso que sentem as mulheres que nos últimos dias tiveram acesso ao grupo. Uma das mulheres que revelou ao SOL a existência do #IMASOLDIER diz que «é difícil sentirmo-nos seguras, porque quando tivemos acesso aos membros do grupo e vemos que há lá  homens casados, comprometidos, militares, polícias… A quem é que se pede ajuda nestas situações?». Ao SOL, Carlos Cabreiro, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T), disse compreender o medo, porém salienta que se trata «de dados  difíceis de confirmar», uma vez que na internet a falsificação de identidade é recorrente. «Não podemos dizer que não há quem não use o nosso perfil, sendo que há outros problemas como cometerem-se crimes com os nossos e-mails ou serem enviadas mensagens falsas», exemplifica.

Para uma outra mulher que teve acesso ao grupo, o que viu resume-se a uma «manifestação profundamente marialva, na apologia de uma suposta masculinidade baseada na conquista de território e numa guerra de sexos». Mas, ainda mais preocupante, foi perceber que havia fotografias tiradas na rua, sem as visadas perceberem, a acabarem ali.  «Sem precisar de tirar nudes, ter sexo, de estar bêbedas ou seminuas, pelos vistos podemos ser fotografadas a andar na rua, a tomar café ou a trabalhar para sermos expostas e localizadas, até com nome e contacto, e virarmos ‘alvo a abater’».   

Para as autoridades, o fenómeno é preocupante, mas de difícil intervenção. «Como não estamos a falar de imagens de menores e crianças, como é que sabemos se houve ou não consentimento das pessoas?», diz Carlos Cabreiro. Além disso, tal como nos casos de crime sexual, o crime de devassa da vida privada também requer participação para ser investigado.  «Para já, nestes grupos, a única preocupação que realmente sentimos é que não houvesse partilha de crianças, porque caso haja pode não haver necessidade de queixa porque estamos a falar de crimes públicos». 

Cabreiro explica que a PJ  não tem um acesso direto às redes, na medida que não pode andar sempre a controlar o que lá é partilhado. «Se tivermos conhecimento, temos acesso, mas ninguém das redes sociais nos comunica que num determinado local se está a falar de tráfico de droga ou de sexo. Temos de ser nós a pesquisar e é impossível a polícia controlar os conteúdos e tudo o que se passa na internet. Com certeza que vamos patrulhando e percebendo onde há informação,  fóruns com conteúdos criminosos e  consequentemente vamos atuando, mas o papel do cidadão e da comunicação social é denunciar para que possa ser investigado algum caso em concreto». Quando os grupos são secretos, o trabalho torna-se ainda mais difícil.

Fonte:  https://ionline.sapo.pt/artigo/564161/o-mundo-sinistro-dos-grupos-secretos-do-facebbok?seccao=Portugal_i

Farto de perfis falsos no faceboook?

Uma das pragas do faceboook é a proliferação de perfis falsos, geralmente com “simpáticas ofertas” de crédito e não só.

fake-profile-facebook

O FAKE FB é uma extensão para o Chrome, gratuita, que permite identificar os perfis falsos. Basta entrar no perfil de um utilizador e clicar no pequeno botão azul do Chrome para identificar a credibilidade do perfil. Os seus criadores dizem que a aplicação consegue uma taxa de acerto de 90% através de uma análise matemática para definir o perfil analisado.

A extensão (para Chrome) está disponível aqui: https://chrome.google.com/webstore/search/FAKE%20FB?hl=pt-PT

Experimentei  e não fiquei decepcionado: em duas dezenas de perfis verificados, três identificações estavam incorretas, e todas a partir de perfis praticamente “abandonados” ou sem atividade recente.

Caso queira reportar uma conta falsa, pode denunciá-la diretamente:

https://www.facebook.com/help/306643639690823?helpref=uf_permalink