Articles for Outubro 2018

Para uma escola do Século XXI

O que mais me impressiona na escola de hoje é a sua semelhança com a escola que frequentei há mais de cinquenta anos. É como se o tempo não tivesse passado e eu me visse de novo nas velhas aulas do Liceu de Pedro Nunes, onde o saber só existia do lado do professor e os alunos tinham de estar sossegados para aprender sem ousar discutir.

Sei que passou meio século. Tanto tempo! E, contudo, muitos não conseguem ver como tudo deveria ser diferente.

Os estudantes movem-se com à vontade no mundo da internet, mas a sala de aula não tem computadores. Nos seus telemóveis, aprendem de modo horizontal a partir de sítios da internet ou através dos seus contactos com o mundo, mas a escola permanece com a obsessão de proibir os telemóveis, nalguns colégios até no pátio; e, em muitos casos, os professores falam sem parar a «dar a matéria», sendo poucos os que incentivam a pesquisa e o trabalho de grupo. No Liceu de Pedro Nunes de outrora os pais podiam falar diretamente com qualquer professor, agora tudo tem de passar pelo Diretor de Turma, em muitos casos um professor que pouco sabe do que se passa noutras salas de aula. Há cinquenta anos a ilegal Comissão Pró- Associação dos Liceus organizava conferências e outras iniciativas culturais, as Associações de agora são, quase sempre, grupos de estudantes que apenas organizam festas e viagens de fim de curso.

Sobretudo hoje vemos uma sala de aula onde predomina a desmotivação e o desânimo. Obcecados com o controlo disciplinar, os professores só pensam em «estratégias» para ter os alunos quietos e sossegados, sendo poucos os que perguntam aos alunos o que deveria ser obrigatório questionar: «Como acham que poderíamos melhorar a sala de aula?». Os estudantes dormem nas últimas filas ou contestam os professores de forma infantil e por vezes agressiva, porque já não são mobilizáveis por aquele velho método de ensinar. Nessas salas de aula da descrença, até entra a polícia de surpresa para revistar as mochilas dos alunos denunciados como «drogados», mas ninguém fala com os estudantes sobre os consumos. Tóxicos.

Perdidos numa burocracia imensa exigida pelo ministério, os professores fazem o possível, e alguns (poucos) conseguem inovar na relação pedagógica e servir de modelo aos seus alunos. Certos jovens são muito bons estudantes e merecem todo o nosso apoio, mas o que fazer perante os desmotivados, os descrentes e aqueles com muitos problemas?

A escola do século XXI terá de ser muito diferente. Em vez de passarem o conhecimento de «cima para baixo» (do alto do seu saber para o baixo da ignorância dos alunos) os professores devem preocupar-se com a construção do conhecimento, ou seja, como poderão transformar a sala de aula num grupo de trabalho cooperativo. A escola deve ajudar os jovens a conhecer o mundo e a singrar nele, em vez de ser uma máquina de produzir testes e exames (necessários mas não suficientes). O desporto, o teatro e a música devem ser valorizados, como veículos essenciais para o bem-estar dos mais novos.
Cada escola terá de ser autónoma, em ligação com a comunidade onde está inserida e com cada vez menos dependência em relação ao ministério gigante. Em vez de «chamar os pais à escola», os estabelecimentos de ensino terão de ter iniciativas onde os encarregados de educação se sintam bem, pela simples razão de que foram os alunos (seus filhos e educandos) os protagonistas da inovação.

A escola do século XXI necessita de uma mudança profunda, em que toda a comunidade educativa deve participar com esperança. Só o caminho do diálogo constante entre todos permitirá o progresso.

Daniel Sampaio

 

in https://www.leyaeducacao.com/z_escola/i_371

 

Fonte: https://uptokids.pt/educacao/seguranca-educacao/o-que-podemos-fazer-para-tirar-poder-ao-bullying/?fbclid=IwAR21eploRn6w__b_lozmqipv4mPyyXpCoKSEUvHsfRw79_q_a0ovwko-zvw

Para enfrentarmos alguma coisa, precisamos de saber o que ela é. De a conhecer e a encarar de frente.

O bullying tem várias características próprias, como a repetição do comportamento abusivo, um claro desequilíbrio entre o agressor e a vítima, e uma intenção do agressor em prejudicar a sua vítima. É algo dirigido, e não aleatório. É continuado no tempo e tem uma vítima sem a mesma capacidade de resposta que o agressor, que exerce o seu poder sobre ela.

O que podemos fazer para tirar poder ao bullying?

É muito importante cultivar um canal de comunicação com os nossos filhos deste cedo, para que eles sintam que nos podem contar as coisas mais pequenas e as maiores. Que somos um porto seguro, e um dos seus adultos de confiança a quem se podem dirigir sempre que precisarem. Para isso, nota como recebes alguma coisa que o teu filho te vai contar, especialmente quando fez uma asneira. Eu penso sempre na coragem que ele teve em ser verdadeiro comigo, por isso a primeira coisa que lhe digo sempre é  “Obrigada por me teres contado”.

Funciona como uma pausa interior minha de micro segundos, que me ajuda a alinhar tudo o que vou fazer e dizer à minha intenção como mãe. Ajuda-me a valorizar o facto de ele sentir que pode falar comigo, algo essencial para a nossa relação, e para os desafios que ele vai enfrentar no seu crescimento.

O Bullying não é simples.

Tem muitos fios enrolados, muita dor envolvida, muitas pessoas que acabam por ter um papel ativo sem terem noção disso. Ser espectador também fomenta o bullying. Ele existe alimentado pela audiência que tem. Não ser plateia, ajuda a diminuir o seu poder.

Trabalhar desde cedo a empatia nos nossos filhos é para mim uma das mais poderosas aliadas anti-bullying. Deve estar lá desde sempre. Tal como lhes ensinamos a ler e escrever, deviam aprender a ler emoções, a colocar-se no lugar do outro a perceber o impacto das suas ações, a trabalhar o seu lado humano.

Como é silencioso, temos de ter atenção às pistas.

No caso da vítima, os sinais de alerta são, por exemplo:

  • desaparecerem com frequência as suas coisas na escola;
  • aparecerem com marcas ou nódoas negras regularmente;
  • evitarem os recreios;
  • não serem convidados para as festas de aniversário;
  • apresentarem resistência constante em ir para a escola.

No caso dos agressores:

  • aparecem com objetos ou dinheiro extra regularmente;
  • são pouco empáticos perante a situação dos colegas;
  • desvalorizam a escola;
  • são desafiadores da autoridade;
  • respondem com uma atitude provocadora;
  • gozam com a situação das vítimas;
  • nunca aceitam as suas responsabilidades culpando os outros;
  • demonstram agressividade nos jogos e situações de desafio.

O bullying já não tem limites físicos. Com a evolução das redes sociais já salta os portões da escola. Acompanha a vítima de uma forma silenciosa mesmo quando está em casa. Persegue-a e aumenta em número e impacto a sua audiência.

Para prevenir o cyberbullying para além de trabalhar a empatia, essencial para perceberem o impacto das suas ações nos outros, devemos mostrar aos nossos filhos como utilizar de uma forma equilibrada as redes sociais. De uma forma humana e consciente. Nas redes sociais, como não vemos a cara, não vemos a reação do outro. Uma sequência de emojis e fotografias retocadas, de cenários fabricados, de vidas “perfeitas” onde a desumanização dá por vezes origem a situações de grave violência psicológica.

Mesmo que o bullying não aconteça ao teu filho, não é por isso que possa ser ignorado.

É como um vírus, espalha-se. Contamina quem o faz, quem dele sofre e quem assiste. Não pode ser trabalhado isoladamente, mas todos devemos intervir, participar, prevenir, denunciar, tomar um papel ativo nas escolas e na vida para que o bullying diminua.

bullying afecta TODA a escola. Por isso, todos temos de ter um papel.

Tudo está a mudar muito depressa. Perdemos o pé, o foco, ficamos enrolados e não notamos o que se está a passar mesmo à nossa frente. Temos muito tempo para fazer, temos pouco tempo para ser.

Os nossos filhos precisam da nossa ajuda para navegarem neste intenso novo mundo. Nós também precisamos de ajuda…

O bullying precisa de ser resolvido por todos, em conjunto, em comunidade para que nenhuma criança se sinta sozinha. Nem nenhum pai.

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