Francisco José Viegas

Uns tempos de visita a universidades americanas mostram realidades assustadoras – para as universidades portuguesas. Cursos que começam a horas, salas ocupadas, bibliotecas abertas durante a noite; o panorama deixa-nos “pró-americanos”, para retomar uma classificação pejorativa muito em voga. E deixa um amargo de boca quando se lêem os resultados do inquérito sobre a Universidade de Coimbra, realizado por Rui Bebiano e Elísio Estanque, e que nos informa que cerca de 18,3% dos inquiridos revelou jamais ler livros (ou seja, 33% de rapazes e 11% de raparigas) e 33% não ler jornais. Este inquérito dá conta da surdez da universidade e, embora seja mudo, grita bastante, dá conta da miséria verdadeira em ambiente universitário.

Em Washington, na Georgetown, dei uma conferência na sala de Estudos Árabes; os alunos não protestaram por ser à hora de almoço e reparei que, num semestre, tinham lido mais livros portugueses do que todos os frequentadores da Universidade de Coimbra durante um ano ou mais. Muito mais, aliás. Uns dias depois, assisti a uma aula de filosofia na Brown, em Providence, – discutia-se “A Ideologia Alemã”, de Marx e Engels, que os alunos tinham lido, juntamente com Weber, Nietzsche, Feuerbach ou passagens de Hegel. Aliás, o professor lançava armadilhas a meio “Em que página vem isso? Em que livro leu esse conceito?” Na semana seguinte vão discutir Weber. Lêem dez livros por semestre neste curso.

A Brown University, aliás, é um exemplo traumático. As bibliotecas enchem-se depois das oito da noite, após o jantar. À meia-noite podem consultar-se microfilmes ou assistir a reuniões de grupos de trabalho na área das ciências. Na quinta-feira passada fui convidado para jantar com um grupo de alunos no Faculty Club da Brown; às dez da noite pediram desculpa mas tinham de retirar-se – havia trabalho para fazer e era preciso aproveitar a biblioteca até mais tarde. No dia seguinte, ao meio-dia, estavam na minha conferência e tinham lido textos entretanto sugeridos. Encontrei-os ao fim da tarde numa das bibliotecas de humanidades a requisitar livros para o fim-de-semana, se bem que a sexta-feira à noite começava com uma aula de ginástica ou um jogo de futebol nos terrenos da universidade. Sim, eram alunos de letras mas fazem desporto na universidade. Longe vão os tempos em que Raul Miguel Rosado Fernandes, homem das letras clássicas, à frente de um grupo da Faculdade de Letras de Lisboa, se sagrou campeão nacional de remo, derrotando inclusive a equipa da Escola Naval. Quem quiser comparar os alunos da época com os de hoje, há-de perceber como eles se tornaram menos leitores, menos saudáveis e mais doentios.

Em Portugal inventamos muitas desculpas e desvalorizamos os relatórios que dão conta da preguiça congénita dos nossos universitários. As excepções, valiosas, têm o aspecto de uma explosão que há-de ser contrariada pelo ambiente da própria universidade corredores sujos, grafitis nas paredes, os poucos relvados desertos, as bibliotecas pouco utilizadas para investigar. Contei isto a alguns amigos. Falei-lhes do sistema de empréstimo de livros, do ritmo de leitura, das livrarias cheias no centro de Providence, das actividades extracurriculares, do facto de os alunos dos estudos Portugueses e Brasileiros terem lido Eça (3 a 4 livros), Camilo, Machado, Cesário, Camões e de saberem bastante de literatura portuguesa e brasileira contemporânea (não “por ouvir dizer” mas por “ler”). E de os debates nas aulas serem aguerridos, ricos, mostrando leitura e preparação. Disseram-me que eu estava muito americanizado embora eu me limitasse a mostrar-lhes os resultados do inquérito sobre a Universidade de Coimbra, onde se vê – como escrevi – o retrato da miséria escolar e da miséria cultural.

Basta comparar. Basta estar atento. Basta ler os sinais desta pobre falta de curiosidade portuguesa. Pobre país que tanto precisa de punir a pequena “nomenklatura” preguiçosa.

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O bom selvagem.
Vai um grande protesto, pelo país fora, contra a violência sobre os professores. Justificadíssimo. Mas, como acontece ou tem acontecido em matéria de educação, isto já estava previsto. Durante anos, a «escola centrada no aluno» e os mestres das «ciências pedagógicas» transformaram criancinhas em monstros irresponsáveis, ignorantes e prepotentes. Houve, ao longo destes últimos vinte anos, centenas de casos de professores agredidos e impedidos de reagir. Quando uma reportagem televisiva mostrou – com imagens cruas – exemplos dessa violência exercida sobre professores pelos alunos do secundário, logo algumas boas consciências protestaram contra, imagine-se!, a captação dessas imagens; mas não contra a violência, contra «o estatuto do aluno» e outras alegrias do sistema escolar. [No ensino superior, a imagem também é alegre: portões fechados a cadeado (com aplauso do Magnífico Reitor de Coimbra, evidentemente), dirigentes associativos que defendem o direito ao «chumbo» porque «não há condições» para terminar o curso em «tempo normal», faculdades esventradas pelo abandono e cheias de lixo.]
A escola «centrada no aluno» é uma festa para os sentidos, mas pouco edificante quer em matéria disciplinar quer em matéria científica ou pedagógica, com técnicos do Ministério da Educação que têm das escolas uma vaga ideia ou apenas uma «recordação teórica».
Embora nada disso (nem a ideia dos «territórios socialmente problemáticos»), isoladamente, possa explicar uma média (oficial) de duas agressões por dia nas escolas portuguesas, é o sistema de protecção corporativa que está em causa. A escola quer ignorar palavras como «disciplina», «autoridade» e «recompensa». O aluno é o «bom selvagem». Está aí. Aguentem-no. 
 

10 Comments

  1. Não quero saber se o Francisco José Viegas é ou não estalinista, se pertenceu ou não ao MRPP (de Pacheco Pereira e Luís Fazenda, entre outros), se já apoiou Soares e a seguir Cavaco, se foi ou não agraciado com uma comenda pelo agora PR.

    O que quero saber é isto: tem razão ou não?

    O resto é folclore.

  2. Efectivamente, é abusivo dizer que FJV ou LF pertenceram ao MRPP. Na verdade, eles apenas fazem parte da escumalha estalinista que se juntou para formar a UDP, ainda que muitos deles sejam hoje apoiantes de Cavaco: Pacheco Pererira, João Carlos Espada, FJV. É isso o que se diz no BloguedeEsquerda (http://bde.weblog.com.pt/).

    Dispense esse paternalismo do “tão jovens que vocês são!” Faz-me sempre pensar nos professores que tive e naqueles que gostaria de ter tido. Ou não é verdade que a obra é o espelho do criador?

  3. A expressão “escumalha estalinista que se juntou para formar a UDP, ainda que muitos deles sejam hoje apoiantes de Cavaco: Pacheco Pereira, João Carlos Espada, FJV” não é minha: é do BdE, citando um artigo publicado na Grande Reportagem dos idos de 2005.

  4. Não há paternalismo no “que jovens são”. Era uma constatação de facto.

    Se fossem da minha idade saberiam que aquela não era a onda deles na altura.

    Apenas isso, passar a informação da história. Não vale a pena trocar-lhes as voltas.

  5. Muto bem, fica esclarecido o mal-entendido.

    Mas de facto há um “véu de ignorância”, para citar Nietzsche, sobre o 25 de Abril. Nasci no início dos anos 70 e frequentei o ensino básico e secundário durante os anos 80. Lembro-me claramente de o 25 de Abril fazer parte da matéria do 8º ano, bem lá para o fim do manual, e a professora de História dizer alto e bom som que “não vamos dar essa matéria porque ainda há muita polémica à volta disto”. E não demos NADA nas aulas sobre o 25 de Abril. Estaríamos em 1985, julgo.

    O pouco que sei sobre o 25 de Abril consiste em algumas leituras que fiz, mais tarde, a expensas próprias. Mas rapidamente me apercebi que diferentes Histórias de Portugal narravam estórias diferentes… E lembro-me de os meus pais pretenderem abrir um estabelecimento comercial , algures em 1976/7, e aparecerem uns senhores de um certo partido político que queriam arrendar a coisa, sob ameaça de lhe colocarem uma bomba artesanal na casa, como fizeram a um vizinho nosso. As marcas ainda lá estão, para quem quiser ver.

    Mas já que tem memória desses idos de setenta e tal, não nos quer satisfazer a curiosidade e dizer qual era a onda do Durão Barroso, do Francisco José Viegas, do Fazenda e de mais uns quantos cromos da colecção?
    Agradeço a sua generosidade.

  6. O Durão foi do MRPP aí até 78; O Pacheco Pereira fazia parte de um grupo maoista do Porto, julgo que ligado ao Grito do povo (publicação); O Fazenda, sem certezas, ligado à UDP. O Viegas não situo;
    Nunca medi as pessoas pela filiação partidária. Aquelas que apenas fazem e dizem o que dita o partido são absolutamente desinteressantes.
    Acho que houve generosidade na ligação das pessoas a essas organizações da época. No entanto, o facto de vivermos bastante fechados, sem acesso a acontecimentos do exterior, com pouco acesso a informação e literatura, limitou-nos, pôs-nos algumas palas. Na época eu tinha 24 anos e já estava a dar aulas numa escola pública das industriais e comerciais que então existiam. Embora nunca entendendo estar a viver uma revolução, envolvi-me, mesmo ao nível da escola, em coisas entusiasmantes.

  7. Deve ter sido uma época fantástica, pela envolvência social,pela luta por ideais, pelo próprio romantismo idílico da revolução. Suponho que existiria uma certa magia por assistir ao despertar e à reconstrução de um país. Mas é mau que as gerações mais novas (nas quais, com 35 anos, me incluo) pouco ou nada saibam. Pior, é a sensação de que muito do que hoje se diz está deturpado pela ortodoxia política, estendendo o conceito tanto à “esquerda” como à direita. E é pena, porque lentamente os factos vão caindo no esquecimento e assim se perde a memória de um povo.

    Agradeço-lhe o ter trazido um naco de história. :)

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