Conferência de António Lopes
(Centro de Filosofia – Universidade de Lisboa)
Resumo: O facto mais marcante no mundo da música clássica nas últimas quatro décadas tem sido a emergência e institucionalização da “interpretação historicamente informada”, caracterizada pelo uso de instrumentos e práticas contemporâneos da criação das obras executadas. O autenticismo pode ser encarado como estilo interpretativo particular, como imperativo moral ou como simplesmente analítico ao conceito de execução de obras musicais. A sua hegemonia tem significado a perda, por parte dos intérpretes “tradicionais”, do direito a um segmento significativo do repertório. Executar uma obra para cravo em piano é equiparado pelo proponente da autenticidade histórica a uma transcrição ou mesmo a um arranjo da obra original.
De especial interesse para a estética aplicada são os dilemas que se colocam aos músicos confrontados com decisões interpretativas que envolvem concepções acerca de intenções expressas, implícitas e contextuais para obras criadas em contextos histórico-musicais distintos do presente. Articulando a discussão em termos de possibilidade, e desiderabilidade do regresso às práticas e instrumentos originais, serão analisados os argumentos centrais em torno de uma das versões mais fortes do autenticismo, aquela que defende que o modo estética e/ou eticamente correcto e/ou preferível de interpretação de obras musicais da tradição em causa é invariavelmente o que corresponde às intenções, fortes ou fracas, expressas ou implícitas, dos seus compositores. Defenderei que, apesar de bons argumentos militarem a seu favor, a autenticidade intencionalista deve ser encarada como uma estratégia interpretativa competindo democraticamente com outras pelos melhores resultados estéticos.
De modo sintético, defenderei ainda que a possibilidade de o autenticismo reclamar uma posição a priori preferencial reside sobretudo no apelo a um conceito trans-histórico de obra musical, i.e., o argumento da analiticidade a favor da realização de todas e quaisquer intenções dos compositores, num modelo que inclua essa realização, e que esse apelo falha, em virtude de a distinção entre qualidades essenciais e acidentais de obras ser irremediavelmente contextual quanto à própria estrutura sonora pura de tais obras – objecto consensualmente primordial das intenções fortes e expressas dos compositores –, e logo, a fortiori, quanto a parâmetros como a instrumentação e as prática de execução originais.
20 de Abril de 2009 | 10:30 horas
Sala de Reuniões
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Piso 2

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