A mulher que não consegue esquecer

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Entrevistada pela ABC News, Jill Price, 43 anos, responde sem pestanejar a uma série de perguntas que põem à prova a sua memória fora de série: Quando é que a CBS exibiu o episódio de Dallas “Quem matou JR”?. Jill não só dá a resposta correta como consegue lembrar-se do tempo que fazia nesse dia. E se lhe perguntassem, provavelmente saberia dizer o que tinha vestido e comido. Até ao ano passado, ninguém ouvira falar de Jill Price. A família e os amigos sabiam da sua memória notável, mas o seu caso não era conhecido da comunidade científica.

Texto 025 – Preconceito e Discriminação

Embora o conceito de raça seja moderno, o preconceito e a discriminação são uma constante da história universal e é necessário, antes do mais, fazer a distinção entre as duas ideias. O PRECONCEITO refere-se a opiniões ou atitudes partilhadas por membros de um grupo acerca de outro. As ideias preconceituosas são, muitas vezes, baseadas mais em rumores do que em provas claras; opiniões que resistem à mudança mesmo face a novas informa­ções. As pessoas podem ter preconceitos favoráveis relativos aos grupos com os quais se identificam e preconceitos negativos face a outros. Alguém que tem preconceitos contra determinado grupo recusará atender imparcialmente os seus membros.

A DISCRIMINAçÃo diz respeito ao comportamento tido em relação a outro grupo. Pode detectar-se em acções que negam aos membros de um grupo oportunidades que são dadas a outros, como, por exemplo, quando a um negro é recusado um emprego disponível para um branco. Embora o preconceito esteja frequentemente na base da discriminação, os dois podem existir separadamente. As pessoas podem ter ideias preconceituosas e não agir em conformi­dade. Também é igualmente importante ter em conta que a discriminação não deriva necessá­ria e directamente do preconceito. Por exemplo, uma pessoa branca que queira comprar uma casa pode inibir-se de adquirir a propriedade em bairros predominantemente negros, não por causa de atitudes hostis que possa sentir em relação às pessoas que vivem nesses bairros, mas em função da sua preocupação com a desvalorização da propriedade nessas áreas. Neste caso, as atitudes de preconceito influenciam a discriminação, mas de uma forma indirecta.

Texto 021 – Definição de “conformismo”

Adesão, consciente ou não, aos valores, normas e comportamentos predominantes no grupo de pertença ou de referência. O conformismo opõe-se ao desvio, ainda que o hiperconformismo possa ser considerado como uma forma de desvio: o recém-chegado com excesso de zelo será geralmente objecto de sanções. O conformismo é um tema recorrente ou implícito de toda a sociologia. A psicossociologia experimental estudou em laboratório, de maneira elementar mas precisa, a tendência para o conformismo. As experiências de S. Ach sobre a percepção puseram em evidência a pressão para a uniformidade de juízo que uma maioria unânime exerce sobre um sujeito ingénuo. As muito espectaculares experiências de S. Milgram (1974) revelaram a importância da submissão a uma maioria, sobretudo quando ela parece caucionada por uma autoridade científica. Mas pode também haver influência recíproca, como mostrou a experiência clássica de M. Sherif sobre a formação das normas. A normalização das respostas, face a um estímulo ambíguo, traduz uma tendência para o ajustamento mútuo na interacção entre os sujeitos, que pode compreender-se como uma estratégia de evitamento do conflito.

Raymond Boudon, “Dicionário de Sociologia”

Texto 020 – A rotulação

Os proponentes da teoria da rotulação recorrem muitas vezes aos resultados de um estudo de David Rosenhan, em apoio da sua posição. Rosenhan e sete outras pessoas normais conse¬guiram ser admitidos como pacientes em diferentes hospitais dos Estados Unidos. Cada pseudopaciente chega ao hospital com a mesma queixa, ouvia vozes que diziam “vazio”, “côncavo” ou “estrondo”. Utilizavam pseudónimos e, às vezes, mentiam relativamente às suas profissões, mas em todos os restantes aspectos referiam as suas histórias de vida e as circunstâncias reais. Todos eles, excepto um. foram admitidos nos hospi¬tais psiquiátricos com o diagnóstico de esquizofrenia. Uma vez admi¬tidos. o comportamento dos pseudopacientes era completamente normal. Diziam que já não ouviam vozes e que se sentiam muito bem.
Em nenhum dos casos o pessoal do hospital detectou o logro. O facto de os pseudopacientes se comportarem de forma perfeitamente normal em nada ajudou, pois tudo o que faziam era interpretado em consonância com o diagnóstico original Por exemplo, todos os pseu¬dopacientes tiravam muitos apontamentos. Inicialmente, faziam-no de forma sub-reptícia mas cedo verificaram que não era necessário ser-se circunspecto. Tirar apontamentos era visto apenas como mais uma mani¬festação da perturbação. Num relatório típico da enfermeira podia ler¬-se. «O paciente entrega-se a comportamentos de escrita”. Nunca ninguém indagou o que escreviam e porquê; presumivelmente era entendido como um aspecto de ser esquizofrénico.
Uma vez rotulados. os pacientes foram alvo do mesmo tipo de negligência de que todos os outros pacientes eram. Sentiam-se desper¬sonalizados e impotentes. Davam-lhes muitos comprimidos (que deitavam pela sanita abaixo) mas tinham muito pouco acesso aos técnicos. A média diária de contacto com psiquiatras, psicólogos, estagiários e médicos era, por junto, de 6,8 minutos.
Antes do início do estudo, todos os pseudopacientes haviam concor¬dado tentar obter alta sem recorrer a auxílio exterior, convencendo os responsáveis hospitalares de que já estavam bons mas sem admitirem o logro inicial. Descobriram que era mais fácil entrar do que sair. Em média, foram necessários dezanove dias e, num dos casos, cinquenta e dois. Quando finalmente tiveram alta, foi com o diagnóstico de esqui¬zofrenia em remissão”. O que significa que não existem sintomas, pelo menos de momento. A validade do diagnóstico original nunca foi posta em causa.
Os resultados de Rosenhan apresentam um quadro nada lisonjeiro das condições nos hospitais psiquiátricos e emprestam nova força aos protestos sociais e exigências de reforma. Também demonstram que um «rótulo» diagnóstico pode reforçar a concepção preexistente relativa ao que um paciente é. Mas será que, na realidade, demonstram que a distinção entre são e não-são depende exclusivamente do rótulo e que a doença mental é um mito?
A resposta é não. Consideremos a situação do ponto de vista do psiquiatra. Urn paciente tinha alucinações auditivas ao ser admitido no hospital. Este sintoma desaparece rapidamente. Que vão fazer os psiquia¬tras? A ideia do logro nunca lhes ocorrerá. (Ao fim e ao cabo, quem seria suficientemente paranóico para suspeitar de que se tratava de uma expe¬riència psicológica?) Nestas circunstâncias, devem concluir que o paciente sofre ou sofria de uma perturbação psicótica, talvez esquizofrenia, e devia ser submetido a nova observação, O facto de os últimos actos do paciente serem interpretados em termos do diagnóstico original torna-se perfeita¬mente compreensível. Há alguns dias, ouvia vozes; então, a sua actual sanidado é provavelmente mais aparente do que real. Vistos a esta luz, os actos dos psiquiatras não parecem tão irracionais como isso.

Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian