Texto 035 – A socialização secundária

A socialização secundária é a interiorização de “submundos” insti¬tucionais ou baseados em instituições. O número e o tipo destes submundos é determinado pela complexidade da sociedade. A socia¬lização secundária é a aquisição do conhecimento de funções especí¬ficas, de condutas de rotina próprias às instituições.
Os submundos interiorizados na socialização secundária são geralmente parciais, em contraste com o “mundo básico” adqui¬rido na socialização primária. Contudo, eles também são realida-des mais ou menos coerentes, caracterizadas por componentes normativos e afectivos.
A socialização secundária pressupõe a socialização primária, ou seja, acontece com um indivíduo com uma personalidade já formada e um mundo já interiorizado. Isto pode ser um problema, uma vez que a realidade já interiorizada tem tendência a per¬sistir. Os novos conteúdos devem sobrepor-se à realidade já presente, e pode haver problemas de coerência entre as interiorizações primárias e as novas.

Peter L. Berger e Thomas Luckmann, Construção Social da Realidade, Vozes, 1973 (adaptado)

Texto 026 – O que é a socialização?

«Entenda-se por socialização a dinâmica da transmissão de cultura, o processo pelo qual os homens aprendem as regras e as práticas dos grupos sociais. A socialização é um dos aspectos de toda e qualquer actividade em toda a sociedade humana. Tal como aprendemos um jogo, jogando-o, também aprendemos a viver, vivendo. Somos sociali¬zados através das próprias actividades em que participamos.»

Peter Worsley, Introdução à Sociologia, Publicações Dom Quixote, 1976

Texto 024 – A opção do Estado Novo sobre o conteúdo do ensino

«O Estado Novo, não podendo isolar-se em absoluto das novas exigências, teve de escolher (…). Amparando-se na contraposição entre a “instrução” e a “educação”, aquela como treino do intelecto e esta como formação do carácter, valorizou a função educativa da escola em detrimento da sua finalidade instrutiva. Destinada a incutir a “virtude”, e não a propiciar o treino profissional ou a transmitir conhe¬cimentos úteis, a escola passa a ser concebida mais como instrumento vantajoso de doutrinação do que local de aprendizagem para a vida profissional.»

Medina Carreira, O Estado e a Educação, Cadernos do Público, n.° 7, s/d

Texto 019 – Mudanças sociais no Portugal democrático

“As mudanças sociais, políticas, económicas e culturais que ocorreram em Portugal [desde 25 de Abril de 1974] tiveram um carácter mais radical e realizaram-se em menos tempo do que na maioria dos países europeus. Neste processo, a sociedade portuguesa revelou uma maleabilidade invulgar, uma plasticidade que poucos lhe reconheciam. (…)
Uma das mais perenes ditaduras do século XX transformou-se, em dois anos, após ter passado por uma verdadeira revolução, num Estado democrático. ( … ) Pela pri¬meira vez, Portugal conheceu o sufrágio universal e as eleições livres, tendo-se ainda restaurado as liberdades de expressão e associação, aliás com reduzidíssimas tradi¬ções.
Em dois anos também, foi posto um termo ao mais antigo império colonial do mundo, tendo cerca de 600 000 portugueses (perto de 8 por cento da população total do país) regressado de África, num só ano. ( … ) Em menos de vinte anos, o Bra¬sil, Angola e Moçambique, além de outros pequenos territórios africanos, foram substituídos, nas mentes e nos projectos de vida, pela Europa ocidental e pela Amé¬rica do Norte, os dois continentes mais desenvolvidos do mundo. ( … )
Em pouco mais de duas décadas, a população envelheceu como poucas: deixou de ser uma das mais novas do continente, para ser agora uma das mais velhas, ou antes, em mais rápido envelhecimento. A emigração transformou profundamente as estru¬turas demográficas e os hábitos sociais. O mais elevado analfabetismo da Europa praticamente acabou. A proporcionalmente mais importante população agrícola des¬ceu para níveis inferiores a 10 por cento. ( … ) Os serviços, que ocupavam menos de um quarto da população activa, passaram directamente para o primeiro sector de actividade, com mais de metade do total. As mulheres passaram a ter, em percenta¬gem, presença dominante na população activa, na Administração Pública e nos ban¬cos das Universidades, situação única na Europa, O Ensino Superior deixou de ser um privilégio de uma muito reduzida minoria (menos de 30 000 estudantes) e pas¬sou a ser o destino natural de uma enorme massa de jovens (mais de 300 000). O Estado-providência, fraquíssimo nos anos sessenta, universalizou-se totalmente em menos de vinte anos.»

António Barreto, Tempo de Mudança  Relógio água, 1996