Texto 025 – Preconceito e Discriminação

Embora o conceito de raça seja moderno, o preconceito e a discriminação são uma constante da história universal e é necessário, antes do mais, fazer a distinção entre as duas ideias. O PRECONCEITO refere-se a opiniões ou atitudes partilhadas por membros de um grupo acerca de outro. As ideias preconceituosas são, muitas vezes, baseadas mais em rumores do que em provas claras; opiniões que resistem à mudança mesmo face a novas informa­ções. As pessoas podem ter preconceitos favoráveis relativos aos grupos com os quais se identificam e preconceitos negativos face a outros. Alguém que tem preconceitos contra determinado grupo recusará atender imparcialmente os seus membros.

A DISCRIMINAçÃo diz respeito ao comportamento tido em relação a outro grupo. Pode detectar-se em acções que negam aos membros de um grupo oportunidades que são dadas a outros, como, por exemplo, quando a um negro é recusado um emprego disponível para um branco. Embora o preconceito esteja frequentemente na base da discriminação, os dois podem existir separadamente. As pessoas podem ter ideias preconceituosas e não agir em conformi­dade. Também é igualmente importante ter em conta que a discriminação não deriva necessá­ria e directamente do preconceito. Por exemplo, uma pessoa branca que queira comprar uma casa pode inibir-se de adquirir a propriedade em bairros predominantemente negros, não por causa de atitudes hostis que possa sentir em relação às pessoas que vivem nesses bairros, mas em função da sua preocupação com a desvalorização da propriedade nessas áreas. Neste caso, as atitudes de preconceito influenciam a discriminação, mas de uma forma indirecta.

Texto 023 – Definição de “velhice”

A velhice deve ser compreendida como uma construção social produzida pelos quadros sociais, perpetuamente renegociada e redefinida em função desses quadros. não pode ser reduzida a uma realidade biológica feita de usuras e de incapacidades, que resultam do processo contínuo da desgenerescência. Cada sociedade, em cada período da história, reinterpreta socialmente as diferenças biológicas e cronológicas que separam os indivíduos, a fim de elaborar a organização social do ciclo de vida e de atribuir papéis e estatutos sociais específicos a cada escalão de idade. Os papéis e os estatutos dos velhos foram flutuantes ao longo da história (Minois 1987). A velhice nas sociedades pré-industriais não foi sistematicamente dotada de um estatuto prestigioso em virtude da valorização da sua sabedoria e da sua experiência. Se o advento da sociedade industrial se traduziu, sobretudo, por uma degradação do estatuto social dos velhos, este movimento não envolveu todas as classes sociais desta sociedade com a mesma força. Podemos encontrar uma ilustração disso mesmo no facto de a entrada na velhice, identificável na nossa sociedade pelo acesso ao estatuto de inactivo, não se verificar na mesma idade em todas as classes sociais. A perda da inserção social e a redução do sistema de funções, ou mesmo “a morte social”, intervêm mais cedo para as classes populares que para as classes superiores, sendo estas últimas susceptíveis de pôr a render o conjunto dos seus recursos sociais para prolongar os seus papéis e as suas funções da idade adulta (Guillemard 1971). O limiar da velhice é pois flutuante em função das sociedades, e, no interior de uma mesma sociedade, segundo a classe a que se pertence. É preciso sublinhar que o desenvolvimento dos sistemas de reforma que acompanham o florescimento da sociedade industrial levou a fazer da idade da reforma um dos limiares significativos da entrada na velhice. Nestas sociedades, a velhice ganhou os contornos da reforma. Mas, progressivamente, novos recortes interiores à última etapa da vida emergiram, tais como a terceira e a quarta idades, que traduzem tanto o prolongamento deste período da vida (na França, a esperança de vida aos 60 anos é da ordem dos 20 anos, INSEE, 1985) como a tomada em consideração da velhice como problema social e não já como questão meramente privada e familiar. Nestas condições, a multiplicação das intervenções em favor da velhice levou a distinguir uma velhice dependente que tem a ver com as instituições médico-sociais, de uma velhice autónoma, que tem mais a ver com políticas de animação e de integração social (Guillemard 1980).

Raymond Boudon, “Dicionário de Sociologia”

Texto 022 – Definição de “discriminação”

Embora o termo implique apenas por si mesmo a faculdade de fazer distinções, ganhou em sociologia um sentido crítico. Designa as distinções feitas na vida social em detrimento de certos grupos, que são julgadas inaceitáveis pela maioria, porque violam as normas sociais e o princípio da igualdade perante a lei, ao mesmo tempo que certos subgrupos da população as justificam. É o caso dos comportamentos em relação à população negra nos Estados Unidos da América até aos anos 60; assim como das atitudes anti-semitas. Os critérios de discriminação variam segundo as sociedades e segundo as épocas. Na Índia moderna, que legalmente suprimiu o sistema das castas, os antigos intocáveis são discriminados por causa do passado, que continua vivo ao nível dos costumes. Nos Estados Unidos, a discriminação durante longo tempo exercida contra os negros tinha a sua origem na sua antiga condição de escravos. Um numerus clausus é imposto na Rússia à entrada nas universidades de alunos judeus e arménios. A discriminação pode fundar-se na raça, na religião, na origem nacional ou na cultura (Simpson, Yinger 1965). O facto de se ter podido definir a discriminação social como a maneira de tratar desigualmente indivíduos iguais mostra até que ponto se trata de um conceito estreitamente ligado à sociedade moderna, que põe a igualdade no centro dos seus valores: nas sociedades fundadas nas diferenças de estatuto ou de casta, a discriminação é um conceito neutro, descritivo, desprovido da conotação pejorativa que lhe atribuímos nas nossas sociedades.

Raymond Boudon, “Dicioário de Sociologia”

Texto 021 – Definição de “conformismo”

Adesão, consciente ou não, aos valores, normas e comportamentos predominantes no grupo de pertença ou de referência. O conformismo opõe-se ao desvio, ainda que o hiperconformismo possa ser considerado como uma forma de desvio: o recém-chegado com excesso de zelo será geralmente objecto de sanções. O conformismo é um tema recorrente ou implícito de toda a sociologia. A psicossociologia experimental estudou em laboratório, de maneira elementar mas precisa, a tendência para o conformismo. As experiências de S. Ach sobre a percepção puseram em evidência a pressão para a uniformidade de juízo que uma maioria unânime exerce sobre um sujeito ingénuo. As muito espectaculares experiências de S. Milgram (1974) revelaram a importância da submissão a uma maioria, sobretudo quando ela parece caucionada por uma autoridade científica. Mas pode também haver influência recíproca, como mostrou a experiência clássica de M. Sherif sobre a formação das normas. A normalização das respostas, face a um estímulo ambíguo, traduz uma tendência para o ajustamento mútuo na interacção entre os sujeitos, que pode compreender-se como uma estratégia de evitamento do conflito.

Raymond Boudon, “Dicionário de Sociologia”

Texto 020 – A rotulação

Os proponentes da teoria da rotulação recorrem muitas vezes aos resultados de um estudo de David Rosenhan, em apoio da sua posição. Rosenhan e sete outras pessoas normais conse¬guiram ser admitidos como pacientes em diferentes hospitais dos Estados Unidos. Cada pseudopaciente chega ao hospital com a mesma queixa, ouvia vozes que diziam “vazio”, “côncavo” ou “estrondo”. Utilizavam pseudónimos e, às vezes, mentiam relativamente às suas profissões, mas em todos os restantes aspectos referiam as suas histórias de vida e as circunstâncias reais. Todos eles, excepto um. foram admitidos nos hospi¬tais psiquiátricos com o diagnóstico de esquizofrenia. Uma vez admi¬tidos. o comportamento dos pseudopacientes era completamente normal. Diziam que já não ouviam vozes e que se sentiam muito bem.
Em nenhum dos casos o pessoal do hospital detectou o logro. O facto de os pseudopacientes se comportarem de forma perfeitamente normal em nada ajudou, pois tudo o que faziam era interpretado em consonância com o diagnóstico original Por exemplo, todos os pseu¬dopacientes tiravam muitos apontamentos. Inicialmente, faziam-no de forma sub-reptícia mas cedo verificaram que não era necessário ser-se circunspecto. Tirar apontamentos era visto apenas como mais uma mani¬festação da perturbação. Num relatório típico da enfermeira podia ler¬-se. «O paciente entrega-se a comportamentos de escrita”. Nunca ninguém indagou o que escreviam e porquê; presumivelmente era entendido como um aspecto de ser esquizofrénico.
Uma vez rotulados. os pacientes foram alvo do mesmo tipo de negligência de que todos os outros pacientes eram. Sentiam-se desper¬sonalizados e impotentes. Davam-lhes muitos comprimidos (que deitavam pela sanita abaixo) mas tinham muito pouco acesso aos técnicos. A média diária de contacto com psiquiatras, psicólogos, estagiários e médicos era, por junto, de 6,8 minutos.
Antes do início do estudo, todos os pseudopacientes haviam concor¬dado tentar obter alta sem recorrer a auxílio exterior, convencendo os responsáveis hospitalares de que já estavam bons mas sem admitirem o logro inicial. Descobriram que era mais fácil entrar do que sair. Em média, foram necessários dezanove dias e, num dos casos, cinquenta e dois. Quando finalmente tiveram alta, foi com o diagnóstico de esqui¬zofrenia em remissão”. O que significa que não existem sintomas, pelo menos de momento. A validade do diagnóstico original nunca foi posta em causa.
Os resultados de Rosenhan apresentam um quadro nada lisonjeiro das condições nos hospitais psiquiátricos e emprestam nova força aos protestos sociais e exigências de reforma. Também demonstram que um «rótulo» diagnóstico pode reforçar a concepção preexistente relativa ao que um paciente é. Mas será que, na realidade, demonstram que a distinção entre são e não-são depende exclusivamente do rótulo e que a doença mental é um mito?
A resposta é não. Consideremos a situação do ponto de vista do psiquiatra. Urn paciente tinha alucinações auditivas ao ser admitido no hospital. Este sintoma desaparece rapidamente. Que vão fazer os psiquia¬tras? A ideia do logro nunca lhes ocorrerá. (Ao fim e ao cabo, quem seria suficientemente paranóico para suspeitar de que se tratava de uma expe¬riència psicológica?) Nestas circunstâncias, devem concluir que o paciente sofre ou sofria de uma perturbação psicótica, talvez esquizofrenia, e devia ser submetido a nova observação, O facto de os últimos actos do paciente serem interpretados em termos do diagnóstico original torna-se perfeita¬mente compreensível. Há alguns dias, ouvia vozes; então, a sua actual sanidado é provavelmente mais aparente do que real. Vistos a esta luz, os actos dos psiquiatras não parecem tão irracionais como isso.

Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian